Minimalismo aplicado ao armário: A minha jornada.

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SERÁ QUE EU SOU MINIMALISTA?

Conto-te um pouco o meu flirt com o minimalismo e como o apliquei ao armário 🙂

Hoje quero falar-te um pouco da minha experiência com o minimalismo. Mas posso responder automaticamente: não sou minimalista. Vou utilizar a expressão da Cláudia Ganhão, “o meu minimalismo” porque eu não me considero, de todo, uma pessoa minimalista, eu só utilizo práticas que vão de encontro à filosofia minimalista. Também quero salientar que o meu foco se centra no armário. Embora também tenha aplicado conhecimentos minimalistas a outras facetas da minha vida, hoje quero falar-te do meu minimalismo aplicado ao armário.

Não posso dizer-te ao certo como tudo começou, sei que foi algo progressivo. Claro que a minha percepção é só isso, a minha percepção. Eu digo que nunca fui muito consumista, mas aos olhos de outras pessoas, a medida do que para mim é algo aceitável, é diferente. De qualquer forma, a minha forma de analisar o consumismo mudou e, nos dias de hoje, considero que o que antes fazia não era saudável.  

EXCESSOS

Houve algum momento em que considero que tinha demasiadas coisas, nunca foi aquilo de estar tudo a abarrotar de roupa, não é isso! Mas tinha muito, muito mais roupa. Tinha peças com etiqueta que ficavam meses no armário à espera da ocasião especial! Tinha peças que só viam a luz do dia durante umas horas, naquele momento que eu decidia que aquele modelito era o acertado. Eu sabia tudo o que tinha no armário, isso sabia, mas também sabia que isso era muito acima daquilo que eu necessitava. 

Depois também havia outro condicionante: seis dias por semana eu vestia religiosamente as mesmas roupas; eu tinha que vestir um uniforme de trabalho. Eram peças bonitas, que eu escolhia, de uma marca que até era valorizada por muita gente, não nego. Mas ter que vesti-las, numa rotação louca, durante três meses seguidos, fazia com que as odiasse, fazia com que eu quisesse ter outra roupa diferente à minha disposição e que não tivesse que vestir por imposição. Então, EU COMPRAVA ROUPA QUE NÃO TINHA POSSIBILIDADE DE VESTIR (só tinha um dia livre por semana) e isso aumentava a frustração e a vontade de ter “novidade” sempre no meu roupeiro. 

Então, eu tinha roupas lindas e cobiçadas - tanto de trabalho, como compradas por mim, mas os meus hábitos de consumo não se alinhavam com o que eu necessitava na realidade.

Além disso, não digo que tivesse hábitos de compra impulsivos, mas sei que comprava para PREENCHER LACUNAS, vazios que advinham da minha insatisfação. Insatisfação com o meu trabalho, com as restrições e imposições que dele resultavam, insatisfação com a minha falta de tempo livre e consequente falta de interacções sociais, insatisfação para com aquilo que eu considero uma “pobreza” na qual eu estava inserida e queria a todo o custo sair. Considero esta pobreza social porque eu sentia que o que mais preenchia as minhas horas era o trabalho, mas também pobreza monetária, porque sentia que o meu salário era insuficiente para as exigências da cidade em que vivia. Estas pobrezas necessitavam de uma via de escape e isso reflectia-se nalgumas compras que não eram de todo necessárias, procuravam preencher ou tapar vazios.

Penso também que às vezes falamos do minimalismo de uma maneira muito redutora, que só se resume a objectos físicos. Penso que temos que ir mais além. Por exemplo, ao restringir os hábitos de consumo estamos também a pôr à prova a nossa capacidade de RESISTÊNCIA AOS IMPULSOS E À SUPERFICIALIDADE.
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SOCIEDADE CONSUMISTA

Eu nunca fui uma cabeça louca, sabia da necessidade da poupança, de ter um mínimo para imprevistos. Também não fui tonta e percebi que havia outros sítios onde colocar o meu dinheiro que me fariam melhor embora ao princípio houvesse sempre aquela resistência inicial e pensasse que “Estava a deitar dinheiro fora”. Ao utilizar o dinheiro para outros fins que não objectos físicos, era como se não tivesse provas visíveis da aplicação do dinheiro. Esta é uma visão muito, mas muito errada, posso-te dizer!!

Outro ponto a ter em atenção é o facto de termos crescido no seio de uma sociedade consumista, onde parece ser que vales mais quanto mais tens. Que, quanto mais tiveres, melhor; que, se é de borla, leva para casa, mesmo que não precises; onde cada celebração vai acompanhada de prendas materiais e de uma abundância excessiva.  Eu sei que às vezes nem sequer pensamos que as coisas podem ser de outra forma.

Por outro lado, muitas vezes também há o impulso de comprar coisas para te destacares ou para te inserires nalgum grupo. As nossas vidas sempre estão condicionadas pela sociedade em que vivemos e claro, há normas sociais que estão mais aceites ou normalizadas e que parece que se devam seguir de olhos fechados. 

Como podemos adaptar-nos a uma sociedade consumista, rápida e exigente sem entrar nessa roda de acumulação?

Não sei como é com vocês, mas certamente já sentiram também uma certa pressão social que incita à aquisição de algo. Isto é, passamos a vida a compararmo-nos e “MAIS” PARECE SER O ELEMENTO CONDUTOR EM VEZ DE “MELHOR”. Depois, também as muitas inseguranças que estão associadas às pressões sociais da sociedade neoliberal (um grande engana meninos, já sabes…) que tentamos contrabalançar e que nos incitam a adquirir bens materiais, para não nos sentirmos “menos que os outros”. 

Eu sei que somos nós que criamos essas necessidades, compramos coisas que não nos fazem falta e, ao final de contas, provocamos o efeito contrário. Em vez de nos sentirmos felizes – pode haver uma felicidade imediata, não digo que não – sentimo-nos culpados porque acumulamos coisas que não vão tapar vazios que, ao fim e ao cabo, têm outras origens. Sei que há sempre aquela vontade de comprar algo porque nos aconteceu alguma coisa boa, para celebrar um êxito, um prémio que nós merecemos, não é? Ou então ao contrário, sentimo-nos em baixo por algum motivo ou fracassamos nalguma coisa e queremos ultrapassar isso imediatamente e parece que um objecto material nos vai reconfortar. Aprendi que podemos desfrutar também do orgulho de alguma vitória ou aceitar um fracasso sem recorrermos a “prémios” materiais. 

Sei que com a quantidade de ESTÍMULOS a que somos submetidos vou (e tu também) ter sempre algo que me desperte mais a atenção. A questão é saber “faz-me falta de verdade ou é apenas um capricho?” Aconselho que te dês tempo, se tens uma vontade repentina de comprar algo não sucumbas ao momento. Espera, espera e se calhar daqui a um mês essa vontade já se diluiu e já não sentes essa necessidade premente.

QUALIDADE VS QUANTIDADE

PORQU NÃO PREFERIR QUALIDADE EM VEZ DE QUANTIDADE?

Por vezes, um motivo tão prático como é o poupar dinheiro, pode ser um bom incentivo para investir naquilo que realmente interessa. Pensa, quanto dinheiro gastaste em bugigangas e depois, num determinado momento quiseste algo com uma qualidade superior e evidentemente mais caro e depois não tiveste dinheiro? Claro, o arrependimento volta a assombrar, eu sei, por se ter gasto o dinheiro noutras coisas desnecessárias. E depois eu sei que quando se entra nessa espiral de “mais e mais” nos sentimos assoberbados e parece que não conseguimos abandonar esse ciclo. 

Sei que vieram muitas limpezas, muitos descartes e, em todos eles enchia vários sacos. Ajuda muito, constatei, quando há mudanças de casa e, nesses momentos pode-se aproveitar e ser um pouco mais exigente com esse descarte e só levar para a casa nova as peças mais usadas e mais amadas. Contudo, há a tendência de voltar a acumular, a voltar a comprar mais porque temos a desculpa de que depuramos muita coisa e agora já podemos substituir aquilo que descartamos. 

Eliminamos um ruído ao desfazermo-nos daquilo que não faz sentido nas nossas vidas. Aprendemos a ouvir.  Trata-se de identificar esses ruídos e eliminá-los e ao mesmo tempo entender que podemos construir uma melodia bem bela no nosso armário, com notas limpas e claras. 

O QUE É QUE EU PRECISO?

Outra coisa que te podes dar conta (que a mim também me acontecia) é que havia um conjunto de roupas que eu utilizava mais que o resto. Isso levou-me a pensar se precisava de tanto ou se, na realidade, podia viver com uma ou duas dessas coisas ou até prescindir totalmente delas. Agora o que tento é que O MEU GUARDA-ROUPA SEJA O MAIS UTILIZÁVEL POSSÍVEL

Não te vou negar que também tinha as peças “e se me faz falta” guardadas e nunca as utilizava. Não chegava nunca o momento certo, a ocasião adequada, o contexto óptimo. Penso que há todo um processo de AUTO-CONHECIMENTO e APRENDIZAGEM onde tu é quem tens o condão de estabelecer os teus próprios critérios e definires o que para ti tem valor e o que é prescindível. 

O ter menos vai-te fazer VALORIZAR MAIS O QUE TENS. Não, e isto não é uma frase feita. Tu mesmo podes comprová-lo se quiseres e tiveres força de vontade e um certo brio também em tomares essas decisões.
E AGORA?

Cheguei a um ponto em que estou muito mais atenta, o meu armário e o meu consumo é muito mais ponderado, mais consciente. Mas não te vou mentir, isto não quer dizer que às vezes não caia em condutas um pouco mais consumistas. Ser humano é bem difícil, criamos falsas necessidades mesmo inconscientemente. De qualquer forma, agora sou mais doce comigo própria. Não vale de nada o “castigo” auto imposto nem andar a repreender-me constantemente. Todos nos enganamos em algum momento e o que faz sentido aqui é REDIRECCIONAR E CONTINUAR A APRENDER CADA DIA

O minimalismo pode parecer que consiste em ter poucas coisas, mas não o podemos nem devemos reduzir só a quantidades, não se trata apenas disso. Tu podes ser uma pessoa minimalista mesmo tendo muitas coisas, mas essas coisas têm que ter um valor para ti. E, mais uma vez, temos que abandonar essa tendência que temos de nos compararmos com os outros.

Cada um tem as suas circunstâncias e necessidades distintas.

A tua medida, a tua forma e o teu peso só tu é que o podes delimitar. Há um tempo escrevi uma publicação no Instagram que acho que elucida de alguma maneira o que quero dizer, mesmo não se referindo especificamente ao minimalismo.

Neste artigo...

Não te obrigues a desfazer-te de coisas que a ti te fazem feliz. Não falo só de objectos materiais, também podes aplicá-lo a outros âmbitos da tua vida. Percebe o que a ti te traz satisfação, aquilo a que queres dedicar o teu tempo a tua energia, aquilo que a ti, pessoalmente, te vai enriquecer.
A perfeição é um mito e nunca vai haver um modo perfeito e único de ser minimalista. O único grande e primeiro conselho - vai devagar, escuta e entende o que funciona para ti e, dessa forma se tu quiseres, vais encontrar o teu minimalismo.

Obrigada por estares desse lado! Até à próxima!

Sara.

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